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domingo, 4 de outubro de 2009

O luxo e o trabalho do artesão

  

"SEBASTIÃO é um adolescente de 13 anos com quem converso com frequência. Gosto dele, e ele tenta gostar de mim, embora, às vezes, eu seja chato.Por exemplo, recentemente, Sebastião me confessou que tinha o sonho de sacudir e explodir um magnum de champanhe - isso quando ele ganhar um Grand Prix de Fórmula 1 ou algo equivalente.
Eu comentei que, nessa ocasião, ele deveria escolher um espumante de terceira -não pelo custo, mas "por respeito". "Respeito pelo quê?", ele perguntou. Improvisei uma dissertação sobre a "méthode champenoise". Expliquei como, numa região específica da França, as uvas chardonnay e pinot são colhidas, seu mosto é fermentado em tanques e, logo, durante seis anos ou mais, transvasado repetidamente em garrafas, retirando do gargalo, a cada vez, o sedimento e as levuras. Evoquei a vida do viticultor, entre a espera e o cuidado da vinha. Falei da invenção do champanhe, no século 17, por um monge que se chamava Dom Pérignon, e das novidades introduzidas pela senhora Clicquot, no século 19. Em suma, estraguei a festa imaginária de Sebastião só para lhe lembrar que o líquido que ele se propunha despejar era o resultado do trabalho paciente de artesãos obstinados e orgulhosos de sua arte. Chatice, não é? Mas tenho uma desculpa. A conversa com Sebastião acontecia em Milão, enquanto: 1) eu estava lendo o novo livro de Richard Sennett, "The Craftsman" (O Artífice, Ed. Record), 2) o centro da cidade, onde a gente estava, era tomado por hordas de compradores de moda e design, entre os quais a maioria absoluta era de "emergentes" de sociedades que, hoje, vivem uma rapidíssima mobilidade social (Rússia e China). Ou seja, eu era circundado por consumidores pouco interessados na qualidade do trabalho embutido nos objetos que eles adquiriam e muito interessados no status que esses objetos e suas marcas podem conferir aos usuários. Ao mesmo tempo, eu era encantado pelo texto de Sennett - seu comovente elogio da perícia que encontra seu maior prêmio no orgulho da obra benfeita. Certo, se nem todo trabalho é alienação, é graças à mestria do artesão, ou seja, à alegria de quem exerce sua destreza, mas é também porque, EM TESE, o usuário do produto artesanal reconhece e admira, no objeto manufaturado, a arte de quem o fabricou. Digo "em tese" porque, de fato, é cada vez menos assim: na extrema insegurança produzida pela rápida mobilidade social ("Será que os outros sabem que eu me enriqueci?"), o novíssimo-rico acumula produtos de luxo (supostamente artesanais) sem ter o tempo de acumular a cultura mínima para apreciá-los. Como assim, que cultura? Quando eu era criança, o senhor Columbaro era o humilde alfaiate da família: ele sabia recortar os ternos velhos do meu pai para confeccionar calças e casacos para nós e, também, ele conseguia dar uma segunda vida a ternos puídos, reconstituindo-os depois de ter virado o tecido pelo avesso. Pois bem, uma vez, o senhor Columbaro me explicou longamente por que um terno de Seville Road cai solto ao redor do corpo (só para começar: a tela interna não é colada, mas costurada com centenas de pontos). Comecei assim a enxergar, nos produtos manufaturados, o esforço e a habilidade de quem os fabrica. É possível que, um dia, o preço de um produto artesanal não seja decidido pela excelência do trabalho do artífice, mas seja apenas função do status que sua posse confere (inevitavelmente) numa sociedade em que o consumo aparente define as diferenças sociais. A partir daquele dia, aos poucos, só sobrarão produtos medíocres, que não dirão nada sobre a perícia do artesão -apenas bradarão o status de seus consumidores. Os leitores de "Gomorra", de Roberto Saviano (ed. Bertrand Brasil), assim como os espectadores do filme homônimo, sabem que já há porões em que se fabricam, ao mesmo tempo, do mesmo jeito e no mesmo molde, a suposta alta-costura e suas "cópias" destinadas a quem só quer passear com uma marca famosa gravada no peito. Qual a relevância disso tudo? Pois é, vou parecer catastrofista, mas penso assim: no dia em que formos incapazes de reconhecer e respeitar, no produto, a excelência do artesão, quando não soubermos mais enxergar o trabalho humano nos objetos que usamos, teremos perdido todo interesse pela vida concreta -inclusive pela nossa própria. Era isso que eu tentava dizer a Sebastião."

  • A foto acima é de Ana Clara Garmendia e mostra um artesão da Fendi, exibindo sua arte na noite de celebração da Vogue, o Fashion's Night Out, em 10 de setembro deste ano, em Paris.
  • Gosto ainda mais deste texto porque repete os ensinamentos que passei a vida ouvindo, da boca de meu pai
  • Ensinamentos que voltam à minha mente sempre que vejo uma liquidação em lojas que, supostamente, deveriam vender produtos artesanais de alto luxo, como Dior, Louis Vuitton ou Salvatore Ferragamo.
  • Se os administradores destes negócios pensassem como meu pai ou o escritor do texto acima, jamais rebaixariam o preço de produtos criados com tanto esforço e habilidade.
  • É que este tipo de "valor" não anda em voga nestes dias...
 
 
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* crônica de Contardo Calligaris, publicada em janeiro de 2009, na Folha de São Paulo. ** tela "Ute the Craftsman", do pintor realista Scott Brough, 1999.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Cliente paga mais quando...

Cartaz visto em oficina especializada em espelhos automotivos, São Paulo.

  • E eu acrescentaria: "Cliente que pede mais um descontinho Paga + R$100".
  • O autor da foto afirma que, ao final, pagou o combinado. "Nenhum real a mais. Fiquei bem quietinho na minha."
  • Ou seja, o quadrinho intimida, mas tem lá sua serventia...

* do Updateordie. Foto do Romolo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Vender é emocionar

- O mundo é feito de pessoas, não de consumidores. Por mais que o universo de negócios prefira o contato racional, pessoas são feitas de emoção. O cérebro é colaborativo e não há processo racional sem emoção.

- A fidelização virá quando empresas falarem ao coração das pessoas e buscarem uma conexão emocional. Os novos negócios requerem sensibilidade e experiência sensorial. Contato humano autêntico é tudo o que as pessoas buscam. E nada é mais poderoso que autenticidade. Mostre com atitude que sua loja tem alma. Empresas devem ser espaços de conexão - conexão humana.

- Empresas emblemáticas possuem conteúdo e deixam rastros no seu caminho para que consumidores consigam perceber seu legado e sua história. Vivemos uma época interessante. Uma época que dispensa nomes de disciplinas, que quebra suas fronteiras e que faz com que as misturas sejam a melhor expressão da inventividade. À frente deste tempo estão as pessoas com sensibilidade para contar histórias envolventes, audaciosas, originais, singelas e tocantes. Nenhum de nós vende somente produtos, serviços ou soluções. Estamos no negócio de significados que extrapolam o aspectos funcionais. Contar histórias é uma das formas de criar experiencias de compra, podendo levar ao incremento de resultados. Ao contar estórias, novos elementos são incorporados pela marca, conferindo-lhe alma. O consumidor pode comprar mais, pois reconhece que está recebendo mais da marca e da loja. Em outras palavras: sua empresa, seus vendedores, seus produtos devem construir idéias duradouras que gerem conexão emocional nos consumidores.

- Envolva-se, dialogue, interaja. De todas as formas. O mundo ainda depende 85% na comunicação off line, porém não vive mais sem um plano on line. Não apenas para se conectar com o público AA ou com as "novas gerações", mas porque para as massas acesso ao mundo digital é inclusão e chance de mudança de vida. Seremos cada vez mais multiplataformas, multimeios e multimídia. Esteja atento às redes sociais (weblogs, fotologs, twittter, orkut, myspace, facebook...), mesmo que não signifiquem ainda no Brasil a importância que já ocupam em outros mercados. Chegaremos lá e pode ser mais rápido do que imaginamos.

  • O vídeo T-Mobile Dance (que mostra uma ação de marketing do fabricante de celulares, durante lançamento de um novo modelo - uma estação de trem, em Liverpool, em horário de pico, foi o local escolhido) exemplifica bem a diferença entre mostrar emoção e suscitar emoção.
  • E reflete muitos dos apectos citados acima: conecta-se com as pessoas por envolvê-las.

* Algumas coisas que andei lendo sobre Multimarketing que me impressionaram (adaptadas para o Varejo), no blog da Beth Furtado, consultora de marketing e autora do livro "Desejos Contemporâneos". Lá no Mundo do Marketing.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Valor agregado X Valor intrínseco: qual sua posição?

A jornalista de moda da Folha de São Paulo, Vivian Whiteman, escreveu uma crítica à editora de moda da Vogue América, a poderosa Anna Wintour (que é diaba sim, mas não veste só Prada) no blog Última Moda. Um dos temas levantados é o complicado assunto sobre o valor agregado dos produtos grifados e os "de marca diabo", muitas vezes tão parecidos e vindos do mesmo fabricante que nos deixam sem palavras - e sem argumentos frente aos nossos clientes. Olha só: "Vamos dizer, num exemplo fictício, que a Prada tenha colocado à venda uma regata básica feita de renda renascença. Imaginemos que a regata tenha sido feita e exportada por rendeiras de Pernambuco, que dominam a técnica. A Prada vende a regata em suas lojas, com embalagem e etiqueta. As bordadeiras vendem a mesma peça na feira nordestina. O material é o mesmo, o produto é idêntico, mas qual deles tem mais valor (de venda)? Se a resposta fosse, os dois têm valores (traduzidos em preços) iguais, estaríamos considerando de fato o valor intrínseco, o tecido, a técnica, o tempo de trabalho aplicado etc. Mas, sabemos que, na realidade o produto da Prada seria considerado mais valioso, graças ao chamado 'valor agregado' da grife. Valor esse que não está no produto, é um valor simbólico. Tem também um valor instrumental, ou seja, um valor de uso, porque usar uma peça da Prada representa o status da riqueza, que não está necessariamente na roupa, mas que pode ser apreendido por meio dela.

O que dizer então das grandes grifes internacionais que terceirizam sua produção para ateliês clandestinos, ateliês que fazem as peças originais (com etiqueta) e se encarregam também de fazer as falsificadas (sem etiqueta)? E das centenas de fábricas de calças jeans genéricas que vendem seus produtos para marcas de 'jeans premium'? Como fica a questão do valor nesses casos? E vamos mais longe. Uma bolsa-porcaria 'made in China' vendida na 'ala popular' da loja de Marc Jacobs, vale mais ou menos do que uma boa bolsa de couro artesanal vendida numa feira hippie? Na análise que faço desse quadro, não dá para falar a sério da 'era do valor intrínseco' dentro de um contexto em que o valor principal ainda é o emprestado pela 'aura' da grife. A única possibilidade seria fazer comparações entre os produtos das grandes grifes e, somente entre eles, identificar aqueles que realmente têm design especial, matérias-primas de qualidade e caráter artesanal no que diz respeito à manufatura. Seria bom levar em conta também as condições em que esse produto foi feito, se o trabalhador recebeu decentemente, se seu horário de trabalho foi respeitado e seus direitos observados, porque trabalho escravo (ou semi-escravo), pelo menos na minha cabeça, acaba com o valor intrínseco de qualquer produto."

  • Se você é lojista ou mesmo consumidor, já deve ter topado com esse convite: "- Compre este jeans - esta marca é a mesma que produz para a Forum, Diesel, Carmim... Pode reparar, é o mesmo corte, lavagem etc. A unica diferença é o preço!" E não só com fábricas de jeans, mas de t-shirts, bolsas, sapatos masculinos e tudo o mais. Esse é um argumento que o/a estimula a comprar?
  • Peço a gentileza de responder a questão e comentar o assunto no espaço reservado aos comentários. Estou buscando mais informações para trazer este assunto novamente, aqui.
  • O texto completo da Vivian é longo, mas muito bom. Para lê-lo inteiro, procure pelos 4 posts intulados "Nem vem, Anna", no Útima Moda. Ou aguarde, pois selecionei mais trechos interessantes, especialmente para postar aqui.